Pronto. Era a morte que tocava meu ombro bem de levinho pra não assustar. Eu achei que era naquela hora que começava o flashback que se vê em filme. A primeira coisa que me ocorreu foi um vinil com “Chiribiribi quá quá” tocando alto numa vitrola em 45 rotações. Não era bem o que tinha em mente, mas vá lá. Acho que a gente nunca planeja esse momento com precisão. Agora vai assim mesmo. A verduga da desvida já tinha apoiado a foice numa cerca, pois notou que ia demorar. E o Ary Barroso continuava sem vacilar: “Chiribiribi quá quá, Chiribiribi quá quá...”. Aquilo parecia não ter fim. Puxei pela memória e vi que nem ao menos conhecia a canção. Talvez fosse uma mensagem! Essas coisas acontecem, provavelmente antes do túnel por onde a gente tem que seguir até ver a luz. Comecei a prestar atenção na letra:
“Pra que juiz marcar o jogo entre nós dois
se vale ‘foul’, vale ‘offside’ e bofetão;
É melhor o juiz lamber sabão;
Oh! O juiz, o juiz é um ladrão.”
Não, não. Devia estar no canal errado. Esse recado não era pra mim. Mesmo tendo nascido na terra do futebol, entendia xongas do valente esporte bretão! Ou será que a mensagem era que eu devia ter aprendido a jogar futebol? Tarde demais. Também podia ser outra coisa: quando chegasse no fim do túnel, perguntar pro Ary se nunca tinha ouvido falar em rima rica. Por via das dúvidas, memorizei esse recado. Não custava nada, já que eu estava indo para lá mesmo.
Minha mente vagava; pareceu que eu ouvia um silêncio de anjos. Não, não merecia. Era a música que começava a sumir. Pensei: Existe um Deus! Mas por falar em Deus, em vez do tal flashback, comecei a lembrar de uma piada em que o Altíssimo resolveu descer à Terra para cobrar pelo uso indevido do seu nome. Afinal de contas, Santo Antonio, São Pedro e os outros tops estavam riquíssimos só pela cessão de direito de uso de seus nomes para mercearias, igrejas, times de futebol, bairros inteiros! E Ele tinha avisado em Mandamento e tudo mais que o Seu nome não era pra brincadeira. Quando já estava com as malas prontas, São Francisco vaticinou que era melhor não, pois o que mais se ouvia por aqui era “Deus lhe pague” e tudo que o Divino ia encontrar eram dívidas.
O pior é que eu não conseguia rir. Será que não tinha entendido a piada? Pensei em contar de novo pra ver se o ritmo melhorava, caprichar na interpretação... Debruçada num mourão da cerca, a mórbida visitante, seca feito um varapau, já estava cochilando, com dor nos quartos e um calor tremendo daquela roupa preta comprida que era obrigada a vestir. Agora, eu pensava que devia ficar triste por não poder mais gozar a vida. Aí, lembrei que não tinha sido tão boa assim... Mas também não via motivos pra ficar contente por acompanhar a Danada.
O tempo foi passando e eu sentindo uma fominha. Uma pizza talvez! Saideira. Perguntei se a morte queria rachar uma pizza de calabresa e uma coca litro. Ah, e se podia financiar o lanche e me emprestar algum, pois tinha vindo despreparado. Nem uma troca de roupa, uma cueca limpa, uma escova de dente! Ela, provavelmente por problemas de fígado pelo estresse da profissão, não demonstrava o menor vestígio de senso de humor. Me lançou um olhar venenoso enquanto continuava com aquela cara de bunda sem lavar. Certamente faltava-lhe uma válvula de escape – um esporte de várzea, quem sabe? Ela só grunhia. Mas será o Benedito? Ao pronunciar esse nome, lembrei que tinha ficado com o casaco do Benê. Precisava ir lá devolver. O negão é friorento e vai me matar! Saí correndo e a morte atrás de mim. De longe, o Benê me viu, ficou branco, se benzeu e deitou o cabelo – fugiu levantando poeira. E eu atrás. E aquele ícone do fim agarrava o saiote de sua veste negra e vinha acelerada me perseguindo com suas canelas descarnadas.
Uma luz forte surgiu a minha frente. Pá! Até que enfim! Era o dono da pensão que abriu a porta, coçou o saco e murmurou “seis e meia”. Deixa eu levantar e devolver a japona do Benê antes que...
quinta-feira, 17 de março de 2011
quarta-feira, 2 de março de 2011
Malandro é o Curupira, que faz Gol de Calcanhar
O leão e a leoa viviam às turras. Brigavam por causa da caça, da limpeza do covil, do banho dos filhotes.
Naquele dia, não tinha sido diferente e o leão saiu batendo a porta da caverna. Andava pela mata dando patadas em tudo que encontrava, urrando para todos ouvirem. Ela lhe dava nos nervos, mandava fazer isso, proibia de fazer aquilo. E ele posando de rei. Roar! Correu muito até se cansar. Deitou-se no galho de uma jaqueira e ficou ali parado, até que desaparecesse a vontade de extrair os pelos dela com uma pinça.
Foi então que um ratinho desavisado passou por cima do galho, carregando o butim de sua campanha num acampamento próximo. O grande felino segurou-o pelos quartos traseiros até quase esmagá-lo, embora não quisesse promover nada rápido demais, nem definitivo. Centrou todo seu ódio no pequeno roedor, gritando: “Criatura insignificante, ralé dos seres vivos, sarjeta da mata. Você é nada, só não o destruo com um dedo mínimo porque você é a escória e eu tenho nojo de tocar suas entranhas e me tornar qualquer coisa próxima de você.”
Nessa hora, o rabinho que o pequeno larápio tinha mergulhado no pote de maionese foi de grande utilidade. Espremeu-se por entre os dedos poderosos da fera imensa e correu para a ponta de um galho frágil, não muito distante. Satisfeito com sua artimanha, pôs-se a galhofar, imitando a voz do leão em sua fala miúda, dizendo: “Eu é que sou o rei da floresta. Você só tem pose, juba e”, esfregando o rabinho, completou, “patas fortes. Mas é burro feito um asno”. Desceu da árvore, correndo desembestado.
Atrás dele vinha o leão irritado e com o orgulho ferido.
Para provar sua teoria da estupidez do leão e, simultaneamente, demonstrar todo o conhecimento adquirido nos inúmeros livros que roera, o ratinho sentou-se sobre uma pequena folha no meio do lago e gritava teoremas pela metade, verbos no futuro do pretérito composto, fórmulas insolúveis, trechos da tabela periódica, nomes de minerais, capitais de países da Europa Oriental.
O leão rugia: “Quando eu te pegar, vou fazer picadinho, sua ameba tagarela!”
Desta feita, o espetaculoso sentara-se no alto de outra árvore e ria com as canjicas de fora. Às suas costas, ouviu um rosnado baixo. Era a leoa, que o comeu de um bocado.
Contradizendo a linha da ficção adotada por autores do século XXI, que afirma que todos os textos contemporâneos que abordam romances terminam em separação ou em um momento rotineiro que permite várias leituras, o casal de leões viveu feliz para sempre.
Naquele dia, não tinha sido diferente e o leão saiu batendo a porta da caverna. Andava pela mata dando patadas em tudo que encontrava, urrando para todos ouvirem. Ela lhe dava nos nervos, mandava fazer isso, proibia de fazer aquilo. E ele posando de rei. Roar! Correu muito até se cansar. Deitou-se no galho de uma jaqueira e ficou ali parado, até que desaparecesse a vontade de extrair os pelos dela com uma pinça.
Foi então que um ratinho desavisado passou por cima do galho, carregando o butim de sua campanha num acampamento próximo. O grande felino segurou-o pelos quartos traseiros até quase esmagá-lo, embora não quisesse promover nada rápido demais, nem definitivo. Centrou todo seu ódio no pequeno roedor, gritando: “Criatura insignificante, ralé dos seres vivos, sarjeta da mata. Você é nada, só não o destruo com um dedo mínimo porque você é a escória e eu tenho nojo de tocar suas entranhas e me tornar qualquer coisa próxima de você.”
Nessa hora, o rabinho que o pequeno larápio tinha mergulhado no pote de maionese foi de grande utilidade. Espremeu-se por entre os dedos poderosos da fera imensa e correu para a ponta de um galho frágil, não muito distante. Satisfeito com sua artimanha, pôs-se a galhofar, imitando a voz do leão em sua fala miúda, dizendo: “Eu é que sou o rei da floresta. Você só tem pose, juba e”, esfregando o rabinho, completou, “patas fortes. Mas é burro feito um asno”. Desceu da árvore, correndo desembestado.
Atrás dele vinha o leão irritado e com o orgulho ferido.
Para provar sua teoria da estupidez do leão e, simultaneamente, demonstrar todo o conhecimento adquirido nos inúmeros livros que roera, o ratinho sentou-se sobre uma pequena folha no meio do lago e gritava teoremas pela metade, verbos no futuro do pretérito composto, fórmulas insolúveis, trechos da tabela periódica, nomes de minerais, capitais de países da Europa Oriental.
O leão rugia: “Quando eu te pegar, vou fazer picadinho, sua ameba tagarela!”
Desta feita, o espetaculoso sentara-se no alto de outra árvore e ria com as canjicas de fora. Às suas costas, ouviu um rosnado baixo. Era a leoa, que o comeu de um bocado.
Contradizendo a linha da ficção adotada por autores do século XXI, que afirma que todos os textos contemporâneos que abordam romances terminam em separação ou em um momento rotineiro que permite várias leituras, o casal de leões viveu feliz para sempre.
sábado, 26 de fevereiro de 2011
Na Moita
– Ai, que susto! Não vi que tinha alguém aí na penumbra. Vamos ficar
bem quietos para que a onça não perceba nossa presença... Tem hora
que é melhor se fingir de morto, concorda?
– Grrr...
– É mesmo. Dá muita raiva. Pelo jeito, essa onça já vem assustando –
e comendo – os animais daqui há bastante tempo. A gente se sente
castrado diante de tanta violência e impunidade.
– Arf arf.
– Entendo. Também já me cansei desta vida de fugir de predador.
Mas sem ter competências de agressividade e reação, tudo que nos
resta são a fuga e o esconderijo. Passamos e viver entocados,
imundos, na escuridão, com o coração agitado e as patas trêmulas.
A propósito, este aqui não é o meu habitat. Você sabia que eu nasci
e me criei no circo? É por isso que ainda tenho essa tonalidade
levemente rosé nos pelos... Gostou?
– Grrr...
– Ora, se não gostou, as regras de etiqueta ditam que basta se calar,
sorrir e fazer um aceno com a cabeça. Não precisa tanta
agressividade, tanta rudez animalesca!
– Uauau.
– Melhorou. Viu como é fácil agradar uma dama?
(Coça, coça, coça)
– Quer que eu te conte como vim parar aqui? Pois bem, a gente
gostosão. Tem bicho que tem barriga, mas isso aí é um
abdômen! Qual academia você frequenta? Pilates, acertei?
– Barf barf.
– Não conheço esse método. Alemão? ... Bem, está ficando frio aqui
dentro. Chega pra lá que eu vou me sentar bem pertinho de você...
Assim... Pronto, viu? Agora, um aquece o outro e a gente vai se...
– Nhoc... Blurp... E viva a cadeia alimentar. Vamos ver quem vem lá.
bem quietos para que a onça não perceba nossa presença... Tem hora
que é melhor se fingir de morto, concorda?
– Grrr...
– É mesmo. Dá muita raiva. Pelo jeito, essa onça já vem assustando –
e comendo – os animais daqui há bastante tempo. A gente se sente
castrado diante de tanta violência e impunidade.
– Arf arf.
– Entendo. Também já me cansei desta vida de fugir de predador.
Mas sem ter competências de agressividade e reação, tudo que nos
resta são a fuga e o esconderijo. Passamos e viver entocados,
imundos, na escuridão, com o coração agitado e as patas trêmulas.
A propósito, este aqui não é o meu habitat. Você sabia que eu nasci
e me criei no circo? É por isso que ainda tenho essa tonalidade
levemente rosé nos pelos... Gostou?
– Grrr...
– Ora, se não gostou, as regras de etiqueta ditam que basta se calar,
sorrir e fazer um aceno com a cabeça. Não precisa tanta
agressividade, tanta rudez animalesca!
– Uauau.
– Melhorou. Viu como é fácil agradar uma dama?
(Coça, coça, coça)
– Quer que eu te conte como vim parar aqui? Pois bem, a gente
estava em turnê pelo interior do país – fazendo muito sucesso,
eu devo confessar. Um dia, nosso caminhão seguia em
velocidade ribanceira abaixo, passou por um buraco imenso e
eu caí da boleia. Ninguém ouviu meus gritos e... aqui estou. Veja
o meu pelo, está perdendo a cor e já está quase branco, tsc.
(Coça, coça, coça)
– Ai, pelas barbas de São Francisco! Eu, instruída, de tradicional
linhagem de poodles, venho me ocultar numa caverna fétida e,
ainda por cima, com um simulacro de cachorro-do-mato sem o
menor verniz. Você não para de coçar a orelha, cheirar o pé e
lamber as partes pudendas... Dá para melhorar os modos? Só
um pouquinho? Que falta de touché... Além do que, o respeito
é bom e poupa os dentes.
– ...
– Você não é de muito falar também. Escuta, lá na jungle, você não
aprendeu nada a não ser rosnar, latir, fungar e vociferar?
– Auuuuuuuuu...
– E uivar pra lua?! Shhhh. Aí, você já passou dos limites! Cala a boca
antes que ela te escute. Sit! Good boy. Ai, como dizia Proust, “onde
fui amarrar meu jegue.”
– ...
– Melhor assim. Fica aí de papo pro ar, refrescando as miudezas e em
silêncio, que é mais seguro.
– ...
– Hummm. Assim que o vi, notei que você tinha o cérebro de um
protozoário, mas agora, pelo menos, está parecendo... sei lá... gostosão. Tem bicho que tem barriga, mas isso aí é um
abdômen! Qual academia você frequenta? Pilates, acertei?
– Barf barf.
– Não conheço esse método. Alemão? ... Bem, está ficando frio aqui
dentro. Chega pra lá que eu vou me sentar bem pertinho de você...
Assim... Pronto, viu? Agora, um aquece o outro e a gente vai se...
– Nhoc... Blurp... E viva a cadeia alimentar. Vamos ver quem vem lá.
domingo, 30 de janeiro de 2011
Isso deve querer dizer alguma coisa...
Não é conto nem lenda. É a mais pura verdade, acredite quem quiser. Isto posto, segue a história.
Uma vez, fui a um casamento. Na hora de jogar o buquê, a noiva, muito minha amiga, olhou para trás, tentando se assegurar de onde eu estava. Virou-se de costas e jogou. Lá vinha ele em minha direção. Ergui os braços e quando tinha as flores quase na ponta dos dedos, passa uma freira feito um corisco. Ela agarrou o buquê e correu como jogador de rúgbi. A noiva arregaçou o vestido até os joelhos e lá se foi aos pinotes atrás da freira. Mas a essa altura, não valia mais – o buquê estava jogado e, o pior, pego. E a sentença proferida: eu ia ter que esperar uma freira se casar primeiro... Veja bem, não falo isso com ressentimento ou dor - não trocaria minha vida por outra. Essa história é surrealmente divertida.
Nunca mais entrei nesse jogo tradicional. A cada casamento, me chamavam para participar e eu até me juntava ao grupo, mas nem me dava ao trabalho de erguer os braços. E ainda dizia que o único sorteio que tinha ganhado era o do meu primeiro carro no consórcio – pagando o resto das prestações, é claro. E tinha a história do buquê e da freira. Isso faz mais de vinte anos.
Ontem fui a uma festa. Na hora do buquê, fui fazer volume no grupo da mulherada outra vez, só para não arranjar inimizades, até porque amo muito aquele casal. Fiquei bem no fundo, evitando a cotovelada de alguma companheira mais afoita. Lá da ponta, ela se virou e jogou. Ele vinha bem alto e... caiu aos meus pés. Não tive alternativa, finalmente agarrei o buquê.
Ocorre que a festa era de bodas de prata . E as flores? Bem, rosas e ... suspiros. Poético, não?
Uma vez, fui a um casamento. Na hora de jogar o buquê, a noiva, muito minha amiga, olhou para trás, tentando se assegurar de onde eu estava. Virou-se de costas e jogou. Lá vinha ele em minha direção. Ergui os braços e quando tinha as flores quase na ponta dos dedos, passa uma freira feito um corisco. Ela agarrou o buquê e correu como jogador de rúgbi. A noiva arregaçou o vestido até os joelhos e lá se foi aos pinotes atrás da freira. Mas a essa altura, não valia mais – o buquê estava jogado e, o pior, pego. E a sentença proferida: eu ia ter que esperar uma freira se casar primeiro... Veja bem, não falo isso com ressentimento ou dor - não trocaria minha vida por outra. Essa história é surrealmente divertida.
Nunca mais entrei nesse jogo tradicional. A cada casamento, me chamavam para participar e eu até me juntava ao grupo, mas nem me dava ao trabalho de erguer os braços. E ainda dizia que o único sorteio que tinha ganhado era o do meu primeiro carro no consórcio – pagando o resto das prestações, é claro. E tinha a história do buquê e da freira. Isso faz mais de vinte anos.
Ontem fui a uma festa. Na hora do buquê, fui fazer volume no grupo da mulherada outra vez, só para não arranjar inimizades, até porque amo muito aquele casal. Fiquei bem no fundo, evitando a cotovelada de alguma companheira mais afoita. Lá da ponta, ela se virou e jogou. Ele vinha bem alto e... caiu aos meus pés. Não tive alternativa, finalmente agarrei o buquê.
Ocorre que a festa era de bodas de prata . E as flores? Bem, rosas e ... suspiros. Poético, não?
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Segundo turno
Segundo as runas na leitura da bruxa,
Os juros esdrúxulos rumo ao cume e os números voluptuosos emolduram as urnas
O matuto impune perdura qual abutre no púlpito
E o cardume de gatunos corruptos triunfa
Juras na tribuna figuram qual recursos de conduta
Abundam calúnias, pedregulhos, macumbas
O orgulho chafurda no perjúrio da bússola sem gume
Nenhuma culpa, nenhum escrúpulo
Afundam a cultura e o rumo
Por costume, pulsam perguntas, dúvidas, repúdio, repulsa
O futuro madruga soturno sob nuvens plúmbeas
Mas segundo Antunes, o pulso ainda pulsa.
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Janela
Lá adiante, o olhar a partir do balão
Cá dentro, a clausura de freira
Fora, o pé que chuta a porta
Aqui, os olhos paralisados na barata
Ali, o focinho do rato pra fora do bueiro
E aqui, a escuridão sem legendas
Ao fundo, o passeio com Platão
Aqui dentro, a estrada sem mapa
Ao longe, a placa traseira do carro encolhendo
Fechada, a mão na mão do amigo
Na superfície, o herói sem escudo
Por dentro, o vão entre o coração e a boca do estômago
Ao longe, música que aquece a alma
E aqui, a galinha com o pescoço destroncado
Fora, os ingredientes que ainda não são bolo
Na intimidade, um olhar de garantias
É um torno que esmaga o coração
E um bilhete de loteria no bolso da calça
Cá dentro, a clausura de freira
Fora, o pé que chuta a porta
Aqui, os olhos paralisados na barata
Ali, o focinho do rato pra fora do bueiro
E aqui, a escuridão sem legendas
Ao fundo, o passeio com Platão
Aqui dentro, a estrada sem mapa
Ao longe, a placa traseira do carro encolhendo
Fechada, a mão na mão do amigo
Na superfície, o herói sem escudo
Por dentro, o vão entre o coração e a boca do estômago
Ao longe, música que aquece a alma
E aqui, a galinha com o pescoço destroncado
Fora, os ingredientes que ainda não são bolo
Na intimidade, um olhar de garantias
É um torno que esmaga o coração
E um bilhete de loteria no bolso da calça
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Aliterando P e B
Nós partimos aboiando
Na bota, barro
Na aba do chapéu, pó
No campo plantado, poeira
Sapoti, goiaba, cambucá, jenipapo, mangaba. Podre, parecendo pedra.
Apeamos dos potros a repousar a boiada.
Ali no acampamento, rabisco de bezerro
Pretérito de boi
Nas bezerras, úberes parecendo peroba
Por perto, aboletados, urubus e répteis
Expulsos o pardal e a pomba-rola.
A tropa de burros porta sobras, pinga, tempero, carabina e chumbo. Só.
Habitação não há.
Sem sabão sem sabonete. Suor.
Os capangas são só rebotalho.
Sem apologia da súplica cabocla
Também sem roubo e sem briga.
Sem rapsódia, sem rapto das Sabinas
E nós abestalhados, abilolados, aborrecidos.
Tem vez que dá apetite de empunhar a espingarda
Dar uns pipoco de bala de prata. Sem rubor, dar o bote, o rebote.
Abordar, aborrecer, irromper.
Romper com o perpétuo, com os vampiros, os patronos, os crápulas
Os pernósticos pastores, rabinos, padres
Com a biografia pré-cambriana que nos embalou
Replicar, correspondendo à reputação do pobre diabo
Substituir obsolescência por compromisso
Preponderar.
Resplandecer a poder de plumbum. Por que não?
Pois não, pois sim, pois é.
Na bota, barro
Na aba do chapéu, pó
No campo plantado, poeira
Sapoti, goiaba, cambucá, jenipapo, mangaba. Podre, parecendo pedra.
Apeamos dos potros a repousar a boiada.
Ali no acampamento, rabisco de bezerro
Pretérito de boi
Nas bezerras, úberes parecendo peroba
Por perto, aboletados, urubus e répteis
Expulsos o pardal e a pomba-rola.
A tropa de burros porta sobras, pinga, tempero, carabina e chumbo. Só.
Habitação não há.
Sem sabão sem sabonete. Suor.
Os capangas são só rebotalho.
Sem apologia da súplica cabocla
Também sem roubo e sem briga.
Sem rapsódia, sem rapto das Sabinas
E nós abestalhados, abilolados, aborrecidos.
Tem vez que dá apetite de empunhar a espingarda
Dar uns pipoco de bala de prata. Sem rubor, dar o bote, o rebote.
Abordar, aborrecer, irromper.
Romper com o perpétuo, com os vampiros, os patronos, os crápulas
Os pernósticos pastores, rabinos, padres
Com a biografia pré-cambriana que nos embalou
Replicar, correspondendo à reputação do pobre diabo
Substituir obsolescência por compromisso
Preponderar.
Resplandecer a poder de plumbum. Por que não?
Pois não, pois sim, pois é.
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